terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Quem fez isto?"

Às vezes não conseguimos escolher o que escrevemos, simplesmente aparece cá fora, com uma autonomia que nos espanta, tanto a nós, como aos outros que depois lêem. Dá vontade de visualizar o interior do processo. Como acontece? Porque acontece? E melhor que isso, podemos dominar esta fera que explode e se revela quando menos se espera, ou estamos destinados a ser dominados por ela?

A "fera" não é nada mais nada menos que aquilo que sentimos, aquilo que, por vezes, julgamos não existir ou simplesmente tentamos esconder, mas que, mais tarde ou mais cedo se expõe. Então mas como é que se expõe? Simples. Muitas pessoas têm medo do que os outros pensam, do que os outros vão dizer, da exposição que vão fazer acerca delas. O mais engraçado é que a exposição é feita pela própria pessoa, por mais ninguém! Devemos pensar assim, sem mais rodeios. Somos o que somos e por mais que tentemos subvalorizar ou esconder algo, esse algo vem ao de cima e quando vem, vem mais vivo que nunca. Afinal de contas esteve fechado numa escuridão, que assusta só de pensar, durante tempo suficiente para preparar esse motim.

É nesta altura que ficamos espantados [com o que escrevemos/fazemos] e perguntamos: de onde veio isto? como fui capaz? porque fiz? vou fazer outra vez? Temos de dominar o espanto e em vez de duvidar das nossas capacidades (no fundo é disso que se trata) temos de acreditar e perceber que sempre fomos assim e só agora o descobrimos.

Mas afinal, domamos a fera e apreendemos os "skills" tornando-nos, supostamente, melhores que os nossos "eus" anteriores, ou são só efeitos esporádicos que não conseguimos controlar de tão selvagens que são? Ter todas as respostas nunca teve piada, mas aqui que ninguém nos ouve posso dar uma resposta: depende!

sábado, 28 de agosto de 2010

Cegueira (in)voluntária?

"Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, in Ensaio sobre a cegueira

Parecem cegos que vêem e não querem ver. Estamos perante uma amálgama de chapéus, geleiras, toalhas e outros afins menos perceptíveis (que não deixam de ser importantes no meio desta confusão de cores, cheiros e feitios). O pé de um é a cara do que se segue, num interminável comboio que numa palavra pode ser descrito - desumano. [Aqui o mandamento não é amar o próximo, em vez disso é qualquer coisa como "colar" ao próximo.] Trata-se no entanto, de um comboio em ponto de ruptura prestes a descarrilar. Uns não se conformam com a situação descrita e outros acham-na perfeitamente normal. A guerra começou.

Como podemos chegar a este ponto? Como podemos perder a dignidade e lutar como animais por um território que não é de ninguém e se espera que seja de todos? Estamos cegos e o pior é que, de facto, vemos. Não é preciso pensarmos no "campo de refugiados" descrito acima, já que, no decorrer do dia damos por nós em situações que não achamos serem possíveis (e não é por isso que deixam de acontecer): Uma senhora que pede que lhe arranjem a sombra que está avariada (e, por isso, se desloca); resíduos de uma obra a serem "libertados", livremente, no mar; um senhor que se acha no direito de tirar a vida a outros porque sim... Enfim, uma cegueira (quase) generalizada que põe em perigo a "classe" humana (a qualquer altura a fronteira entre o animal e o homem deixa de existir).

Mas há esperança! Esta reside naqueles (poucos) que vêem, que podem guiar os restantes, mostrando-lhes o caminho. Naqueles que, olhando, vêem e não finjem que não o fazem, que se incomodam, que não se conformam e que reajem.

Os mais cépticos dizem que não é uma pessoa que faz a diferença, resta saber se têm razão.

Vale a pena ser cego e viver com um pé na cara, ou reagir a partir do momento em que o cheiro começa a incomodar?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ar Fresco

(no seguimento de Quatro Paredes)

Estou a olhar fixamente para ti e nada me vem à cabeça, excepto aquilo que veio e rapidamente foi embora, tal é a lentidão de raciocínio. Pensar que em tempos a confusão era tanta, não havia nada na cabeça por não haver tempo, agora, que há tempo, não dá vontade de pensar sequer.

Queixava-me da janela fechada. Abriram-na. E agora? Agora não sei o que fazer com isso. Ainda bem, fico contente. Fico contente por finalmente não me sentir pressionado por tanto e por nada! A lufada de ar fresco chegou e com ela outros sentimentos, outras liberdades, outras confusões, não menos confusas, mas outras. A Espada desapareceu, as paredes permanecem é certo, mas a claustrofobia parece diminuir com o tempo. Até as paredes parecem desaparecer no meio deste renascimento em que me encontro. Já não me sinto entre quatro paredes, pelo menos num dos sentidos da palavra. Agora estou diante de um campo aberto, à espera que o atravessem, que corram, que saltem, que gritem, que riam, que chorem, que discutam, que sejam felizes...

É tudo isto que sinto, uma revolução, um sentir (diferente do pensar de antes) que não consegue ficar fechado sobre si próprio, um sentir que tem de ser isso mesmo: livre, vivo, irreverente, intenso e, acima de tudo, sentido.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Saudades

Uma palavra de três sílabas que, por si só, causa uma imensidão de reacções. Todos sabemos o que quer dizer, mas mais importante do que isso, sabemos o que é sentir essa palavra, nuns momentos mais, noutros menos.

Temos sorte de saber dar nome ao que sentimos, mas não é por isso que deixamos de sofrer, apenas sabemos e podemos dizer aquilo que nos faz sofrer. É por isso, que só de pensar magoa, irrita, enerva e revolta. Mas, afinal de contas, não podemos culpar nada nem ninguém, essa pequena palavra não é nenhuma entidade, aliás, parte de nós, ou seja, se queremos culpabilizar alguém basta olhar para dentro.

Embora seja responsável por uma revolução interior, não é necessariamente algo de mau. Fico contente ao saber que sinto saudade e que a sentem por mim, quer dizer que sinto falta de alguém (existe alguém com quem estou feliz) e que essa falta pode ser recíproca. Para existir tal sentimento, alguma marca tem de ter sido deixada. Nesse caso, neste momento, não devo ter espaço para mais marcas. É como um sufoco, o coração apertado, os olhos avermelhados... uma constante que persegue e dificulta a nossa existência e ao mesmo tempo a facilita (para existir algo de bom aconteceu antes).

Sinto falta do "olá", do "até já", coisas simples que tenho onde estou, mas que, por virem de outras pessoas, não significam o mesmo. Não que o destas novas pessoas não seja bom, mas porque o das outras o era e deixou de o ser porque desapareceu. Pior se torna quando pensamos nas conversas, nos abraços, nos aconchegos, num verão mágico num local paradisíaco que chegou ao fim.

A todos o que sentem o que sinto e lêem o que escrevo, boa sorte.




(Uma música que canaliza este sentimento, em mim, neste momento)

A ilusao de querer e poder

O que queres ser quando fores grande?

Passamos a nossa infância a ouvir, a ler e a tentar perceber esta pergunta. Quando a percebemos deixa de ser fácil a resposta. Afinal é nessa altura que sentimos a responsabilidade da decisão que temos de tomar e damos por nós a pensar "O que queres ser quando fores grande?". A pergunta altera-se: "O que quero ser, o que quero fazer?".

O mais engraçado é que passamos grande parte da nossa existência a pensar em como responder a uma questão que está, à partida, mal construída. Eu querer quero muita coisa, o problema, às vezes, é saber o quê. Mesmo assim, não é neste ponto que surge o erro estrutural. O que eu quero ser pode ser uma enorme barbaridade. Assim, não só temos de pensar no que queremos ser, como também naquilo que podemos, de facto, ser. A outros menos certos de si, mais preocupados com o ruído exterior do que o impulso interior, acresce ainda a preocupação com o que os outros idealizam acerca do seu futuro.

Imaginando que não perdemos o nosso tempo com o erro enunciado, como podemos responder a esta pergunta com algum grau de certeza?

Será a pergunta uma ilusão ou é a resposta que o é?