sábado, 28 de agosto de 2010

Cegueira (in)voluntária?

"Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, in Ensaio sobre a cegueira

Parecem cegos que vêem e não querem ver. Estamos perante uma amálgama de chapéus, geleiras, toalhas e outros afins menos perceptíveis (que não deixam de ser importantes no meio desta confusão de cores, cheiros e feitios). O pé de um é a cara do que se segue, num interminável comboio que numa palavra pode ser descrito - desumano. [Aqui o mandamento não é amar o próximo, em vez disso é qualquer coisa como "colar" ao próximo.] Trata-se no entanto, de um comboio em ponto de ruptura prestes a descarrilar. Uns não se conformam com a situação descrita e outros acham-na perfeitamente normal. A guerra começou.

Como podemos chegar a este ponto? Como podemos perder a dignidade e lutar como animais por um território que não é de ninguém e se espera que seja de todos? Estamos cegos e o pior é que, de facto, vemos. Não é preciso pensarmos no "campo de refugiados" descrito acima, já que, no decorrer do dia damos por nós em situações que não achamos serem possíveis (e não é por isso que deixam de acontecer): Uma senhora que pede que lhe arranjem a sombra que está avariada (e, por isso, se desloca); resíduos de uma obra a serem "libertados", livremente, no mar; um senhor que se acha no direito de tirar a vida a outros porque sim... Enfim, uma cegueira (quase) generalizada que põe em perigo a "classe" humana (a qualquer altura a fronteira entre o animal e o homem deixa de existir).

Mas há esperança! Esta reside naqueles (poucos) que vêem, que podem guiar os restantes, mostrando-lhes o caminho. Naqueles que, olhando, vêem e não finjem que não o fazem, que se incomodam, que não se conformam e que reajem.

Os mais cépticos dizem que não é uma pessoa que faz a diferença, resta saber se têm razão.

Vale a pena ser cego e viver com um pé na cara, ou reagir a partir do momento em que o cheiro começa a incomodar?

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